setembro 2026
Por FisioNunes
Basta um passo em falso, uma mudança de direção ou uma irregularidade no terreno para que o pé rode e o tornozelo doa imediatamente. Muitas pessoas já passaram por isso: o inchaço aparece, caminhar torna-se difícil e, durante alguns dias, cada movimento é feito com cuidado.
Depois, a situação melhora. A dor diminui, o inchaço desaparece progressivamente e começa a ser possível caminhar normalmente. É precisamente nesta fase que algumas pessoas consideram que a lesão está resolvida e retomam o exercício, o trabalho físico ou as atividades habituais.
Mas conseguir caminhar não significa necessariamente que o tornozelo tenha recuperado toda a sua capacidade. Uma entorse do tornozelo ocorre quando os ligamentos são estirados ou sofrem uma lesão, frequentemente depois de o pé rodar para dentro. Dor, inchaço, nódoas negras e dificuldade em apoiar o pé são manifestações comuns. As entorses ligeiras podem melhorar em poucas semanas, enquanto as mais graves podem necessitar de vários meses até que o tornozelo volte a sentir-se completamente normal.
Imagine, por exemplo, alguém que pratica corrida ao fim de semana. Numa corrida, pisa uma superfície irregular, o tornozelo roda e surge uma entorse. Nos primeiros dias, reduz a atividade, controla o inchaço e evita apoiar demasiado o pé. Duas ou três semanas depois já consegue caminhar sem dificuldade.
Decide então voltar a correr.
Ao fim de alguns minutos sente que o tornozelo está inseguro. Não existe necessariamente uma dor forte, mas surge aquela sensação difícil de explicar de que "o pé não responde da mesma maneira". Numa mudança de direção, sente novamente que o tornozelo quase roda. É neste momento que uma recuperação aparentemente terminada pode revelar que ainda existe trabalho por fazer.
Depois de uma entorse, podem ficar comprometidas não apenas a mobilidade e a força, mas também a capacidade de controlar a posição do tornozelo e de responder rapidamente às alterações do terreno. A reabilitação procura recuperar essas capacidades de forma progressiva, incluindo exercícios de mobilidade, fortalecimento e equilíbrio. O equilíbrio merece particular atenção. Quando caminhamos numa superfície irregular ou mudamos rapidamente de direção, o corpo precisa de receber informação dos músculos e das articulações e responder em frações de segundo para manter o pé estável. Depois de uma entorse, este sistema pode não funcionar da mesma forma. Se a pessoa regressar ao desporto apenas porque já consegue caminhar sem dor, pode estar a exigir ao tornozelo uma capacidade que ainda não recuperou completamente.
É também por isso que a reabilitação não termina necessariamente quando deixa de existir dor.
Na fisioterapia, a recuperação pode começar por movimentos simples destinados a recuperar a mobilidade do tornozelo. À medida que a tolerância aumenta, podem ser introduzidos exercícios para recuperar força, estabilidade e equilíbrio. Posteriormente, dependendo das exigências da pessoa, o trabalho pode evoluir para movimentos mais próximos daquilo que precisa de fazer no quotidiano, no trabalho ou no desporto.
Esta progressão é particularmente importante para quem pratica atividades que envolvem corrida, saltos ou mudanças de direção. Um tornozelo que está preparado para caminhar pode ainda não estar preparado para receber repetidamente o impacto e as forças associadas à prática desportiva.
E existe outra questão que merece atenção: o tornozelo que "vai abaixo" repetidamente não deve ser encarado simplesmente como falta de sorte. A instabilidade crónica pode desenvolver-se depois de entorses repetidas ou de uma recuperação incompleta. Nestes casos, a pessoa pode sentir que o tornozelo cede, sobretudo em terrenos irregulares ou durante determinadas atividades. O problema pode acompanhar-se de desconforto, inchaço e sensação de instabilidade.
É aqui que a fisioterapia pode ter um papel importante, não apenas depois de uma nova entorse, mas na recuperação da capacidade que ficou comprometida. A avaliação permite perceber o que ainda está limitado: será a mobilidade? A força? O equilíbrio? A capacidade de apoiar e controlar o corpo numa só perna? Será a confiança para voltar a executar determinado movimento? A resposta não é igual para todas as pessoas e, por isso, o programa de recuperação também não deve ser igual.
Outro erro frequente é pensar que, depois de uma entorse, a única forma de prevenir outra é simplesmente ter mais cuidado. Ter cuidado é importante, mas não é suficiente. O objetivo da reabilitação é permitir que o tornozelo volte a tolerar as exigências a que será sujeito. Isso implica recuperar progressivamente a capacidade de suportar carga e responder ao movimento, em vez de evitar indefinidamente as situações que parecem representar risco.
Uma pessoa que voltou a correr deverá, por exemplo, recuperar progressivamente as capacidades necessárias para correr. Quem trabalha muitas horas de pé terá de recuperar tolerância para permanecer em carga. Quem pratica um desporto com mudanças rápidas de direção precisará de uma preparação diferente. É esta ligação entre a lesão e a vida real que torna a fisioterapia particularmente importante na recuperação.
Nem todas as entorses necessitam de acompanhamento especializado. Muitas evoluem favoravelmente com medidas adequadas e progressão gradual da atividade. No entanto, quando permanecem dor, inchaço, dificuldade em apoiar o pé ou sensação de instabilidade, ou quando o regresso ao trabalho ou ao desporto continua condicionado, é importante procurar avaliação. Uma entorse pode acontecer num segundo.
A recuperação, essa, não deve ser medida apenas pelo momento em que conseguimos voltar a caminhar. Deve ser medida pela capacidade de voltar a confiar no tornozelo, suportar as exigências do dia a dia e responder novamente aos movimentos que fazem parte da nossa vida. Porque estar sem dor é importante. Mas recuperar verdadeiramente é conseguir voltar a fazer aquilo que nos fez parar.
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